TUBERCULOSE DO SUPLÍCIO À INSPIRAÇÃO LITERÁRIA

As novas gerações não imaginam que durante bastante tempo a doença mais fatal no mundo inspirasse a produção de poetas e escritores, o enaltecimento deles à beleza das tísicas e a aparências doentes e miseráveis oriundas do autoabandono. A tuberculose, causadora da morte de 1,5 milhão de pessoas por ano, segundo a OMS, infernizou a vida de muitos deles no século 19 e mais da metade do século 20, pois muitos a contraíram a ponto de morrer ou terem a saúde devastada. A tendência deles à depressão profunda surtia, na grande maioria dos casos, em vida desregrada, sem condições de higiene, regada a álcool, encafifada no fumo e carente de alimentação. Um quadro de vulnerabilidade extrema, típico para o Mycobacterium tuberculosis – bacilo motivador da tuberculose – realizar estragos.

   A lista de poetas e escritores famosos que tiveram tuberculose é imensa, como Nelson Rodrigues, Manuel Bandeira, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Cruz e Sousa, Álvares de Azevedo, Emily Brontë, John Keats, Lord Byron e Friedrich Schiller. Fora dela, outros expressaram seus sentimentos em relação a seus amores, parentes e amigos portadores da doença. Os versos e relatos geralmente transmitiam sofreguidão, mas vários encontraram espaços para expor fina ironia. A riqueza de detalhes serve também para marcar historicamente tempos em que as alternativas de terapêutica eram restritas a sanatórios distantes e próximos da natureza, a alimentação era à base, sobretudo, de feijão, os doentes eram submetidos a terríveis exames e procedimentos, no início dos anos 20, como o pneumotórax, no qual uma agulha penetrava entre os vãos da costela para injetar ar, a toracoplastia, para afastamento ou extração cirúrgica de costelas, e a hemoptise, a fim de expulsar o sangue pela boca.

O período literário com maior exaltação à tuberculose foi o do Romantismo no século 18, principalmente pelo movimento conhecido como Mal do Século, originário da região anglo-saxônica, e idealizado no Brasil por diversos poetas considerados mórbido-pessimistas. Com base no culto do eu, expressavam, segundo o “Dicionário de Termos Literários”, de Moisés Massaud,  extremo pessimismo, sensação de perda de suporte, apatia moral, melancolia difusa, tristeza, culto do mistério, do sonho, da inquietude mórbida, tédio irremissível, sem causa, sofrimento cósmico, ausência da alegria de viver, fantasia desmesurada, atração pelo infinito, desencanto em face do cotidiano, desilusão amorosa, nostalgia, falta de sentimento vital, depressão profunda, abulia, resultando em males físicos, mentais ou imaginários que levam à morte precoce ou ao suicídio.

Imagine esses ingredientes somados à tuberculose, casos dos poetas mórbido-pessimistas Castro Alves, Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, mortos quando ainda estavam na fase dos 20 anos por causa da enfermidade.

Verdadeiros desabafos em forma de versos sobre a vida indo embora:

 Eu sei que vou morrer… dentro do meu peito /
um mal terrível me devora a vida. /
Triste Assaverus, que no fim da estrada /
só tem por braços uma cruz erguida. /
Sou o cipreste qu’inda mesmo florido /
Sombra da morte no ramal encerra! /
Vivo – que vaga entre o chão dos mortos, /
Morto – entre os vivos a vagar na Terra.

 

“Mocidade e Morte”, de Castro Alves, falecido aos 24 anos.

 Descansem o meu leito solitário /
Na floresta dos homens esquecida /
À sombra de uma cruz e escrevam nela: /
Foi poeta, sonhou e amou a vida.

Trecho de “Lembranças de Morrer”, de Álvares de Azevedo, que morreu aos 21 anos.

 Eu sofro; o corpo padece / 

E minh’alma se estremece /
Ouvindo o dobrar de um sino (…)

A febre me queima a fonte /

E dos túmulos a aragem /
Roça-me a pálida face /
Mas no delírio e na febre /
Sempre teu rosto contemplo / 

Trechos do poema “No leito”, de Casimiro de Abreu, que sucumbiu aos 23 anos.

Augusto dos Anjos, outro poeta mórbido-pessimista a quem se atribuiu erroneamente ter sido tísico, morreu jovem em 1914 de pneumonia e ficou sem pai em 1905 por tuberculose. Em duas quadras de longa poesia, ele externou sua percepção sobre esse mal.


Falar somente uma linguagem rouca, /
Um português cansado e incompreensível, /
Vomitar o pulmão na noite horrível /
Em que se deita sangue pela boca! /
Expulsar aos bocados, a existência /
Numa bacia autômata de barro /
Alucinado, vendo em cada escarro /
O retrato da própria consciência…

Poesia “Os doentes”, de Augusto dos Anjos, falecido aos 30 anos

Fina ironia

Também no Modernismo, movimento literário e artístico do início do século 20 que visava, a partir do rompimento com o tradicionalismo, à liberdade estética, à experimentação constante e à independência cultural do país, a tuberculose resultou em abrangente literatura. E quem mais a incorporou foi Manuel Bandeira, conhecido como o ‘Poeta Tísico’ por escrever: “Mas então não farei mais nada porque em mim o poeta é tuberculose. Eu sou Manuel Bandeira, o Poeta Tísico”. Devido à doença, o Brasil ganhou um dos seus mais expressivos poetas, já que aos 18 anos, em 1904, deixou os planos de ser arquiteto após saber que estava com tuberculose. Submeteu-se durante 15 anos a tratamentos baseados no clima e altitude em cinco cidades brasileiras e no Sanatório de Cladavel, na Suíça. A ‘sentença de morte’ que significava à época a tuberculose fez da enfermidade inspiração para boa parte de seus escritos, mas ele resistiu até ficar bastante idoso e faleceu por hemorragia digestiva alta. Entre seus poemas figura o seguinte:

 

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos, /
A vida inteira que poderia ter sido e não foi. /
Tosse, tosse, tosse. /
Mandou chamar o médico. /
Diga trinta e três. /
Trinta e três… trinta e três… trinta e três… /
Respire /
O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo /
e o pulmão direito infiltrado. /
Então doutor, não é possível tentar o pneumotórax? /
Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

Poema “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira, finado aos 80 anos

A descrição literária mais crua sobre a vida de portadores de tuberculose em sanatórios saiu da vivência do dramaturgo, jornalista e teatrólogo Nelson Rodrigues quando ele se tratava da doença na estância climática de Campos de Jordão, em São Paulo, a mais procurada no Brasil para tal finalidade até a primeira metade dos anos 1900. Ele ficou de abril de 1934 a junho de 1935 num Sanatorinho Popular, onde, em 1935, escreveu o seu primeiro texto dramático. Para ele, o sanatório, de forma geral, se tratava da “casa dos mortos”, principalmente por se queixar de solidão ao perceber a escassez de correspondências para ele. Também reclamava dos inúmeros pneumotórax para examiná-lo. A tuberculose foi implacável em relação a Rodrigues: teve 70% de sua visão reduzida, perdeu o irmão Joffre por consequência da doença e chegou à velhice com várias mazelas até morrer em 1980, aos 68 anos de idade, em decorrência de complicações cardíacas e respiratóriasSeu desabafo na publicação “Memórias”, de 1967, expõe a vulnerabilidade à tuberculose.

        “Não tinha roupa, ou só tinha um terno; não tinha meias, e só tinha um par de sapatos; trabalhava demais e quase não dormia; e, quantas vezes, almocei uma média e não jantei nada? Tudo isso era a minha fome, e tudo isso foi a minha tuberculose”, escreveu Rodrigues.

        A tuberculose também foi bem retratada pela romancista, contista e cronista Dinah Silveira de Queiroz em 1949, quando escreveu o romance “Floradas da Serra”, baseado no romance de homem e mulher que se conhecem numa clínica para tratamento de tuberculose em Campos de Jordão.Em sua narrativa, descreveu o isolamento de adolescentes recolhidas em uma pensão para moças em Campos de Jordão. Em 1954, o italiano Luciano Salce dirigiu filme homônimo baseado nessa obra.


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