As crianças estão sujeitas à tuberculose


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Quando mencionada a tuberculose em alguém, logo vem à imaginação que se trata de um adulto, sobretudo em grande parte da Europa e países desenvolvidos, onde a incidência da doença na infância acontece bem menos. Nos países em desenvolvimento como o Brasil, no entanto, esse quadro infeccioso em crianças tem sido bastante preocupante e está bastante associado ao contato com adultos contagiados pelo bacilo de Koch – agente bacteriano causador da maioria dos casos de tuberculose, geralmente em lugares pobres, com péssimas condições de qualidade de vida e aglomeração humana. Crianças de todas as idades estão sujeitas à tuberculose, que surge com mais frequência entre um e quatro anos.

A infância é o período decisivo para prevenir em relação à meningite tuberculosa e formas pulmonares e disseminadas da doença, por meio da vacinação com BCG, produzida pela Fundação Ataulpho de Paiva, que ativa o sistema imunológico e cuja indicação vai de zero a 4 anos. Fazer um bebê lidar com a picada da vacina vale muito para não deixá-lo vulnerável ao grande sofrimento futuro inerente à doença. Algo evidenciado nos relatos médicos sobre o quanto as crianças padecem desde o início, pois os sinais e os sintomas de tuberculose nelas são inespecíficos e isso torna o diagnóstico mais difícil do que em adultos, que são a maior fonte de infecção delas.

O espectro clínico da tuberculose é bastante abrangente em crianças, desde formas assintomáticas até as disseminadas mais graves, que tendem à caquexia – extrema redução do peso corporal, caracterizada pela redução tanto da musculatura esquelética como da massa de tecido gorduroso e da massa óssea. Com isso, há extremas dificuldades respiratórias, piora da capacidade física, intolerância a esforços, atrofia muscular, sérios problemas ósseos com propensão a fraturas, riscos de mais infecções, entre outros problemas. A morte muitas vezes aparece iminente.

A maior incidência dos casos de tuberculose em crianças é a pulmonar. No geral, as manifestações clínicas da tuberculose podem ocorrer de forma variada e a febre vespertina prolongada por mais de 15 dias figura como grande tendência. Os quadros leves da doença, além da febre, proporcionam irritabilidade, emagrecimento discreto, pouca tosse e suor noturno. O tratamento à base de antibióticos, como em adultos, costuma ser bem tolerado pelas crianças, embora muitas resistam por tomar diferentes medicamentos ao dia num período, geralmente, de seis meses, algo correspondente a cerca de mil comprimidos.

Em recém-nascidos, cuja propensão à infecção fica muito maior sem vacinação com BCG, a doença torna-se fatal. O Brasil teve seu primeiro surto – o segundo no mundo – nessa fase da vida em 2012, quando houve transmissão do bacilo de Koch por enfermeira no Hospital e Maternidade Madre Theodora, em Campinas, com a contaminação de 107 bebês e mortes de 18 infectados. O caso mostra que os recém-nascidos são totalmente vulneráveis ao respirar o ar com gotículas infectadas pelo bacilo, pois apesar do contato da enfermeira com mães na maternidade, apenas eles ficaram contaminados. Os fetos também correm sérios riscos de morte ao respirar ou engolir líquido amniótico infectado.

Diagnóstico

Na grande maioria dos casos, os pequenos têm dificuldade para expectoração, justo quando se precisa do recolhimento de material, o escarro, para o exame baciloscópico. O lavado gástrico (LG) – procedimento terapêutico em que se introduz uma sonda ou um tubo no estômago e se irriga este órgão com água – em diversos casos surge como alternativa diante à dificuldade de se obter secreções, a fim de haver a confirmação microbiológica da doença tuberculosa.

Além disso, outros usuais aliados na identificação do problema podem ser o histórico clínico, achados radiológicos, histórico epidemiológico de contato com adulto tuberculoso e interpretação da prova tuberculínica – teste cutâneo em que o antígeno tuberculina induz localmente processo inflamatório de tipo retardado em pessoas infectadas pelo bacilo de Koch.Padronizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), essa prova passou a ser empregada no Brasil a partir de 1961 para detectar a presença de infecção tuberculosa no grupo etário de menores de 15 anos, e possibilita diagnóstico diferencial e avaliações de contatos individuais, além de estudos epidemiológicos.

Por causa das dificuldades de diagnóstico, até as estimativas sobre a propagação da tuberculose infantil no mundo estão longe da exatidão. Divulgada em julho 2014 com ênfase em nova fórmula de cálculo criada, a pesquisa “Burden of childhood tuberculosis in 22 high-burden countries: a mathematical modelling study”, da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, iniciada em 2010, estimou em 650 mil novos casos anuais a tuberculose infantil nos 22 países pesquisados, entre os quais o Brasil, 25% acima do calculado pela OMS (530 mil) em 2014.

O estudo inglês tomou como base a infecção com o bacilo de Koch, em 2010, de 7,6 milhões de crianças menores de 15 anos e as 650 mil que ficaram doentes, sempre consideradas a prevalência de tuberculose em adultos e variabilidades sociais e epidemiológicas dos países pesquisados. Também apontou para o fato de em torno de 15 milhões de crianças ficarem expostas à tuberculose a cada ano.