Cesta básica para quem tem fome e tuberculose


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Em Eunápolis, na Bahia, os usuários de programas de saúde voltados à tuberculose, hanseníase e HIV e que necessitem poderão ter direito a uma cesta básica individual de alimentos. O vereador do município Jorge Maécio criou projeto de lei para isso, que passará em breve pela aprovação ou não da Câmara de Vereadores local. A iniciativa dá margem a se pensar na disseminação da ideia pelo país, que conta com cesta básica desde o decreto lei número 399, de 30 de abril de 1938, instituída para se tornar uma referência de cálculo do salário mínimo durante o governo de Getúlio Vargas. Especialistas em nutrição comentam os lados positivos e negativos em relação à ideia.

A cesta básica é um conjunto de produtos disponibilizados para uma família de baixa renda durante o mês, com alimentos, produtos de higiene pessoal e de limpeza. Seu teor varia conforme a região do país, porém alguns estão sempre presentes: arroz, feijão, farinha de mesa, fubá, feijão, batata, manteiga, banha / óleo, açúcar e sal. É vista por nutricionistas como uma alternativa para diminuir os problemas de carência financeira, mas com ressalvas principalmente pelo fato de só ter produtos não perecíveis — não conta com alimentos frescos, como frutas e legumes — e da grande quantidade de sal e sódio — usado no seu processamento pelo custo mais barato.

O estado nutricional é um dos principais moduladores da resposta imune, que tem papel fundamental na defesa contra agentes infecciosos e se constitui no principal impedimento para a ocorrência de infecções disseminadas. Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição, Sergio Alberto Rupp de Paiva, o ideal para o bom estado nutricional está no equilíbrio entre o que se come e o que se precisa, dentro das necessidades específicas de cada paciente. No caso da tuberculose, por exemplo, ele lembrou que existe a tendência de perda de peso e desnutrição e a necessidade de mais energia por causa de febre e infecção respiratória. “A cesta básica favorece mais energia por conter produtos com mais carboidratos, como arroz e feijão, mas faltam frutas e verduras, ou seja, vitaminas e minerais, o que pode criar uma carência nutricional”, observou o médico.

A nutricionista e doutoranda em educação e saúde com foco em Comportamento Alimentar na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Lara Natacci considera que a cesta básica oferece um acréscimo de energia à alimentação dos brasileiros, na maioria com fontes de carboidratos, em função da necessidade de inclusão de alimentos não perecíveis. Isso, no seu entender, faz com que não se garanta necessariamente a qualidade da alimentação da população e, por conseguinte, a segurança alimentar e nutricional, uma vez que existe tendência alimentar em todas as faixas de renda da população para o consumo de alimentos industrializados. Para ela, é primordial a intervenção de educação alimentar em iniciativas como essa.

A ausência de produtos frescos nas cestas básicas também é lembrada pela nutricionista clínica Vânia Barberan, colaboradora do Conselho Regional de Nutricionistas do Rio de Janeiro. Contudo, ela acha que essas podem ajudar a qualidade de vida de pessoas que apresentam qualquer patologia, vivem em estágio de pobreza e tendo despesas elevadas por consumir remédios. Com a sobra do dinheiro não gasto em cesta básica, ela ressaltou a possibilidade de se comprar outros produtos, como frutas, verduras, carnes secas e ovos. Por isso defendeu que haja incentivo por parte dos governos para criação de cestas básicas como a sugerida na Bahia. “Igual a qualquer outra doença, a pessoa com tuberculose precisa de comida, um elemento construtor que vai melhorar o sistema imunológico”, disse Vânia, que foi coordenadora durante cinco anos de curso de aperfeiçoamento de nutrição na UFRJ.

Favorável a cestas básicas para portadores de tuberculose desde que seja comprovado com avaliação socioeconômica que a pessoa precisa, Paiva salientou a necessidade de nutricionistas, assistentes sociais e profissionais de saúde orientá-los. Ele lembrou sobre os riscos de se ter deficiências nutricionais na repetição da mesma dieta e defendeu uma alimentação saudável, com frutas e verduras, variada e colorida – alimentos com várias cores ricos em nutrientes, vitaminas e minerais. Além de criticar o excesso de carboidratos na alimentação, inclusive por contribuir com a obesidade, o médico alertou para a grande quantidade de sódio e sal nas cestas básicas, que costuma ter cada uma um quilo desse produto. “A OMS recomenda para que não haja muito sódio – menos de duas gramas por dia –nos alimentos e que se consuma no máximo cinco gramas de sal por dia”, recordou o médico, que também é nutrólogo e docente na Faculdade de Medicina de Botucatu/Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O abandono ao tratamento é um dos pontos que levam à defesa da cesta básica por parte de Vânia. Segundo ela, o uso de medicamentos torna necessários elementos construtores e, se o paciente não tiver algo de bom para se alimentar, vai comer pão com manteiga ou sanduíche e promover azia e refluxo. Então, ela apontou uma tendência a que piore a adesão ao tratamento, já que o paciente sentirá enjoo, reclamará dos comprimidos e associará ao tratamento. Acostumada a lidar com a nutrição de doentes crônicos, a nutricionista destacou a importância de arroz, feijão, legumes, verduras, ovos e carne na dieta dos pacientes.

PIRÂMIDE ALIMENTAR

Para que o estado nutricional fique adequado, a alimentação deve ser rica em nutrientes: proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas, minerais e fibras, nas proporções que o nosso organismo necessita. Uma boa forma de se garantir a quantidade e a qualidade de nossa alimentação, conforme análise de Lara, é seguir o esquema da pirâmide alimentar. A pirâmide alimentar, explicou, separa os alimentos em energéticos, reguladores, construtores e energéticos extras. Esses alimentos têm de ser consumidos em ordem decrescente, ou seja, consumir em maior quantidade os energéticos, seguidos dos reguladores, dos construtores e por último os energéticos extras, de consumo limitado.

Lara dá agumas dicas específicas:

Em relação aos carboidratos complexos, como farinhas, pães, tubérculos, massas, cereais e trigo, é melhor consumir cinco a nove porções ao dia, dando preferência aos integrais, que são ricos em fibras.

Os reguladores — legumes, frutas e verduras — fornecem vitaminas, minerais e fibras.  Deve-se consumir quatro a cinco porções de vegetais e três a cinco porções de frutas ao dia.

Os construtores são ricos em proteínas, como o leite e derivados, carnes, ovos e leguminosas, e responsáveis pela construção dos novos tecidos, pelo crescimento e pela reparação do desgaste natural dos tecidos.  Devem ser consumidas três porções de leite e derivados, uma a duas porções de carne ou equivalentes e uma porção de leguminosas ao dia. Opte pelos laticínios e carnes magros.

Dentre os energéticos extras, os açúcares e doces devem ser consumidos com moderação. As gorduras, por sua vez, são necessárias em uma quantidade mínima no organismo, pois realizam  isolamento  térmico, proteção contra choques e transporte de algumas vitaminas. De qualquer forma, gorduras e açucares estão presentes nos outros grupos alimentares citados acima.

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