Defesa contra a tuberculose pode ser enganada


6O interferon é uma proteína produzida naturalmente no corpo que o ajuda a lutar contra certas infecções e processos de doenças, com função imunoreguladora capaz de destruir células tumorais, vírus e bactérias.  No caso da defesa contra o Mycobacterium tuberculosis – bactéria causadora da tuberculose – sua eficácia tornou-se objeto de aprofundados estudos, pesquisas e discussões. Artigo de cientistas da Escola Politécnica Federal de Lausanne (Epfl), na Suíça, publicado na revista “Cell Host & Microbe”, dá ingredientes a mais polêmica sobre o assunto, quando aponta para a propensão dessa bactéria cooptar mecanismos do sistema imune ligados diretamente ao interferon em seu próprio benefício.

Cada vez mais se conclui que a tuberculose é uma doença bastante sofisticada. De acordo com o trabalho suíço, ao mesmo tempo em que o interferon auxilia no combate à Mycobacterium tuberculosis, a infecção tende a ser exacerbada por danos causados pela própria defesa. Isso porque, segundo o estudo, ocorre um sutil ‘assalto’ às defesas imunitárias do corpo, comprovado no laboratório da professora, cientista e pesquisadora Andrea Ablasser na Epfl em colaboração com o laboratório do microbiologista Stewart Cole.

O estudo é o primeiro a identificar uma molécula chamada cgas, que se encontra nos macrófagos do pulmão, como um sensor para o ADN – Ácido desoxirribonucleico, um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos e de alguns vírus – do Mycobacterium tuberculosis. O cgas vigia o interior dos macrófagos e quando detecta peças não identificadas de ADN, como as liberadas pela bactéria da tuberculose, provoca resposta imune dos macrófagos.

A Mycobacterium tuberculosis usa sistema de secreção especializado para lançar sua gama de proteínas tóxicas aos macrófagos. Paralelamente, libera pequenas partes de ADN localizadas pelos sistemas de detecção no interior dos macrófagos: inflamasoma – complexo multiproteico – e cgas. Daí, os macrófagos liberam dois tipos de proteínas: interleucina-1 – importante agente mediador na resposta imune contra invasão bacteriana – e os interferones tipo I, que ajudam a bactéria a ponto de enganar os macrófagos e reduzir sua capacidade de defesa.

Esse método de manipulação molecular vale também para outras bactérias que utilizam sistemas de secreção especializados para infectar as células.